O mais estranho de tudo era que toda vez que você chegava perto de mim, eu sentia uma coisa inexplicável, como se só existisse você, só você, e você fosse a razão de tudo. Mas não queria sentir isso, tentava te afastar, tentava correr, fugir, e isso parecia te instigar a me buscar, correr atrás de mim. Você começou fazendo tudo que eu queria que não fizesse, e terminou do mesmo jeito. Tá, não vou falar do fim, eu tô escrevendo o começo agora. Foco no começo.
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Dois anos depois da primeira segunda conversa, outono de 2007.
- Vai ter uma festa hoje a noite, quer ir? – Você me olhou nos olhos, na saída do colégio. – E não, eu não estou te cantando, ok? – Acrescentou, rindo.
- Não, eu não quero. Se afasta de mim, cara. – Eu tinha que ser grossa, eu tinha que tentar fazer você me odiar, não podia gostar de você. Porque toda vez que eu gosto de alguém, dói pra caramba quando a pessoa vai embora, e ela sempre vai.
- Por que você é tão estressada, Alice? Só quero ser teu amigo, pô! Vê se para de ser tão... Mal humorada. Tu é toda sozinha, sem amigos, só tô tentando me enturmar contigo, porra! Vê se larga mão de ser chata. Eu hein.
(Eu tive tanta vontade de te explicar, de te fazer entender que mesmo você querendo ser meu amigo, nós não seríamos. Não, nunca, jamais. Porque você era um metido a besta, fútil, idiota, e eu era... Eu, sabe? Eu sou toda diferente, confusa, errada. Eu quis tanto te explicar isso, quis tanto que você insistisse pra eu ir nessa droga de festa, e quis tanto que você conseguisse me amolecer, que você conseguisse me fazer acreditar em você. Hoje, olhando para trás, eu vejo que tudo teria sido mais fácil se não fosse eu, se não fosse essa minha indecisão, esse meu medo, essa minha insegurança, tudo teria sido mais fácil se eu me entregasse logo a você. Mas é tão difícil, meu amor... É tão difícil pra mim. Eu não conseguia e ainda não consigo me entregar, me jogar, amar, sem pensar. Não consigo. Eu tenho tanto medo de me decepcionar, e esse meu medo é o que sempre atrapalha. Eu não gosto nunca de começar nada, porque todo começo tem seu fim. E eu odeio quando acaba.)
Decidi me desculpar, até porque talvez eu estivesse exagerando. Qual era o problema de uma festa? Teria várias pessoas, vários outros meninos, eu não precisaria pensar em você.
- Você tá certo, Lucas, desculpa, é que eu não tô em um bom dia... Mas, e aí, essa festa, posso ir ainda, ou vai retirar o convite depois da minha grosseria? – Eu sorri.
- Tudo bem, meninas tem isso, né? TPM, ou sei lá o quê. Pode ir sim, a galera toda vai se encontrar ás nove em frente a praça, aparece lá, e vamos juntos pra casa do André, o aniversariante.
Passei o resto do dia pensando no que vestir. Mal sabia eu que a melhor parte da noite, não precisaria de roupas.
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