sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Por Que Você Tinha Que Me Tratar Tão Bem?


O mais estranho de tudo era que toda vez que você chegava perto de mim, eu sentia uma coisa inexplicável, como se só existisse você, só você, e você fosse a razão de tudo. Mas não queria sentir isso, tentava te afastar, tentava correr, fugir, e isso parecia te instigar a me buscar, correr atrás de mim. Você começou fazendo tudo que eu queria que não fizesse, e terminou do mesmo jeito. Tá, não vou falar do fim, eu tô escrevendo o começo agora. Foco no começo.
[...]
Dois anos depois da primeira segunda conversa, outono de 2007.
- Vai ter uma festa hoje a noite, quer ir? – Você me olhou nos olhos, na saída do colégio. – E não, eu não estou te cantando, ok? – Acrescentou, rindo.
 - Não, eu não quero. Se afasta de mim, cara. – Eu tinha que ser grossa, eu tinha que tentar fazer você me odiar, não podia gostar de você. Porque toda vez que eu gosto de alguém, dói pra caramba quando a pessoa vai embora, e ela sempre vai.
- Por que você é tão estressada, Alice? Só quero ser teu amigo, pô! Vê se para de ser tão... Mal humorada. Tu é toda sozinha, sem amigos, só tô tentando me enturmar contigo, porra! Vê se larga mão de ser chata. Eu hein.
(Eu tive tanta vontade de te explicar, de te fazer entender que mesmo você querendo ser meu amigo, nós não seríamos. Não, nunca, jamais. Porque você era um metido a besta, fútil, idiota, e eu era... Eu, sabe? Eu sou toda diferente, confusa, errada. Eu quis tanto te explicar isso, quis tanto que você insistisse pra eu ir nessa droga de festa, e quis tanto que você conseguisse me amolecer, que você conseguisse me fazer acreditar em você. Hoje, olhando para trás, eu vejo que tudo teria sido mais fácil se não fosse eu, se não fosse essa minha indecisão, esse meu medo, essa minha insegurança, tudo teria sido mais fácil se eu me entregasse logo a você. Mas é tão difícil, meu amor... É tão difícil pra mim. Eu não conseguia e ainda não consigo me entregar, me jogar, amar, sem pensar. Não consigo. Eu tenho tanto medo de me decepcionar, e esse meu medo é o que sempre atrapalha. Eu não gosto nunca de começar nada, porque todo começo tem seu fim. E eu odeio quando acaba.)
 Decidi me desculpar, até porque talvez eu estivesse exagerando. Qual era o problema de uma festa? Teria várias pessoas, vários outros meninos, eu não precisaria pensar em você.
- Você tá certo, Lucas, desculpa, é que eu não tô em um bom dia... Mas, e aí, essa festa, posso ir ainda, ou vai retirar o convite depois da minha grosseria? – Eu sorri.
- Tudo bem, meninas tem isso, né? TPM, ou sei lá o quê. Pode ir sim, a galera toda vai se encontrar ás nove em frente a praça, aparece lá, e vamos juntos pra casa do André, o aniversariante.
Passei o resto do dia pensando no que vestir. Mal sabia eu que a melhor parte da noite, não precisaria de roupas.
[...]

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Mãe, eles vão me pegar.

Eu tô perdida. Eu tô presa. Eu tô encurralada em uma porra de uma prisão mental. Eu tô louca, eu tô perdendo o controle. Não sei mais como lidar. Personalidades múltiplas entrando em confronto, depressão espalhada por todos os cantinhos da alma. Tô fria, tô fria, tô tão fria que sinto estar queimando de calor. Eu cansei de tudo que conheço e de tudo que vivi. Eu cansei dos meus pensamentos, faz tempo. É insuportável escrever, eu odeio minhas palavras e meu modo infantil e clichê de descrever o que me mata. Meu assassino sou eu. Tô me matando, tô morrendo, estão me matando. Ninguém percebe. E é tarde demais. Me roubaram, e não dá pra fazer boletim de ocorrência na delegacia, a delegacia tá fechada pra pessoas como eu. Me roubaram, me levaram embora, estão me torturando. Eu tenho medo, o dia todo, o tempo todo. Eu não consigo lembrar de um dia em que eu não tenha chorado e me machucado. Estão me forçando a fazer coisas que eu não quero. Eu tô me forçando a não fazer coisas que eu quero. Eu perdi o controle. Eu tô fingindo.
Mãe, eu ainda acho que eles vão me pegar. Eu ainda vejo eles vindo. Mas eu não posso dizer, nem correr, nem gritar, e, oh, eu não aguento mais lutar sozinha. Mas eu não posso pedir ajuda, eu tentei, mãe, eu tentei, e você disse que eu era louca. Então, eu simplesmente disse que não tinha ninguém tentando me pegar, que eu só perdi o controle por um segundo. Mas tem, mãe. E meu controle não foi perdido por um segundo, ele está perdido por uma vida. Eu sinto muito, mãe, mas eles vão me pegar.
Eu não me conheço mais. Eu não conheço mais esse mundo. Eu tô doente, pai. Para de me ignorar, para de sentir pena de si mesmo, me dá atenção, eu preciso de ajuda, pai. Eu preciso tanto de você, você não faz ideia. Eu tô cansada de ser seu porto seguro, de segurar suas lágrimas e de fingir que eu sou normal, e que você pode desabafar a vontade, porque sua depressão não pode me atingir. Me perdoa por isso, mas eu não aguento mais. Pai, não vai embora, por favor, não me deixa sozinha, eu não consigo mais. 
Eu tô louca.
Louca, maluca, biruta, pirada, doida, doente, retardada. 
E eu vou morrer, eu sinto a morte vindo, eu sinto meu fim chegando. É meu fim. Ele tá chegando. Todo mundo vai ser melhor sem mim, eu sei disso. Ninguém se importa de verdade. Eu não consigo mais conversar com ninguém. Eu tô indo embora.
Eu vou embora, logo, logo. Eu queria dizer adeus. Eu não quero ir, mas não posso lutar contra eles sozinha, e eu tô sozinha. Eu tô fodida. 
Eu sinto muito, muito, muito. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Carta para alguém que eu odeio.

Olha só, eu não sei. Eu juro que quero saber e que tento descobrir, mas eu não sei. Eu não faço a menor ideia do por que, não sei nem se esse é o "por que/porque/por quê/porquê" certo a se usar nessa frase. Eu não sei, nunca soube, creio que nunca vou saber. Eu só fiz, eu só falei, eu só te deixei ir embora. Eu só parei de gostar de você, assim... Do nada. Eu sinto muito, por você, por mim, por tudo que perdemos, por tudo que poderíamos ter sido, por tudo que fomos. Eu comecei a escrever isso aqui, agora, pra evitar chorar, mas não adiantou, já desabei. Eu me odeio, eu me odeio porque eu não sei por que, e não sei como.
 Tô me sentindo muito besta, porque você já me esqueceu e já me deixou pra trás, e eu também já te esqueci e é mais do que óbvio que já te deixei pra trás, mas continuo escrevendo sobre tudo. Eu não gosto mais de você - gostei por muito pouco tempo, na verdade. Mas é que eu acreditei que tudo daria certo, e que mesmo se desse errado, eu não sei, nós daríamos um jeito de salvar pelo menos alguma coisinha, um pouquinho de nós, pra que sobrasse pelo menos algo. Não foi o que aconteceu. Nossa chama saiu do controle e incendiou nossos corpos de forma violenta, queimando tudo que tinha dentro de mim, e eu tive que ficar parada enquanto via você se afastar cada dia mais, tive que ficar parada vendo nosso péssimo final, eu tive que chorar sozinha por algo que eu nem sequer sinto falta. Eu tive que ficar sozinha relembrando cada momento, tentando entender quando e onde foi que tudo saiu do controle, tentando entender onde foi que tomamos outra direção e nos perdemos. Eu te perdi. Foi tão doloroso, ah, foi tão, tão doloroso. Porque eu nunca perco, nada, e eu perdi você, eu não consegui te segurar. Eu não quis te segurar.
Não tem sentido escrever uma carta que nunca vai chegar nas mãos do destinatário. Mas nada que eu faço tem sentido, então posso escrever a vontade.
Sabe o que mais dói? O que mais dói é que eu não gosto de você. Eu te odeio. De verdade, eu odeio as suas atitudes e te acho um ser humano desprezível. O que mais dói é que eu me iludi achando que você era legal e que tinha algumas qualidades. Só que você não tem, você é igual a todo o resto, você é o resto. Você é a personificação da estupidez. Eu odeio tudo que você faz, e odeio essas suas merdas que você diz com toda a convicção do mundo, sem saber 1% do que tá falando. Eu desprezo sua mãe, eu desprezo a criação que ela te deu, e você é a pessoa mais sem educação e inconveniente do mundo. E mesmo assim eu escrevo sobre você. Na verdade, não sobre você, sobre a ideia que eu tinha de você.
Acabou tudo, já faz bastante tempo que acabou tudo. E eu não te quero de volta, deus me livre! Eu quero a ideia que eu tinha de você, eu quero aquela minha ilusão boba de que você podia me salvar, de que você era uma boa pessoa.
Eu te odeio tanto, eu odeio tudo que a gente viveu, porque, sério, você acabou comigo. E eu acabei com você... Pra que tanta dor, por que, pra quê? Era tão mais simples ter deixado tudo como estava... Por que a gente complicou tudo? Olha só, eu não sei.