eu tentei escrever que amei você desde o primeiro contato. eu ia escrever "eu amei você quando você disse sim pro meu pedido de socorro", mas só de escrever essa frase eu fico triste. porque é tão verdade. eu lembro da gente conversando no telefone, eu precisando de ajuda mas você falando daquela menina, porque eu sempre estive ali por você, e você esteve ali por mim. eu lembro da gente sentado na frente do café que não existe mais e eu dizendo, rindo, que te odiava, e você disse "mas eu te amo". e naquela época já tinha acontecido. eu já te amava mais do que era pressuposto que eu te amasse. e a gente já fingia, lembra como a gente fingia? como todo mundo sabia, e a gente sabia, mas a gente fingia. nossos beijos e todo o resto era secreto, até aquela virada do ano, que você resolveu demonstrar, e dançou comigo, você dançou comigo. e eu já dançava com você desde muito antes, mas você só decidiu dançar comigo na virada do ano. e as oito da manhã, quando todos saíram da sua casa, e só ficou eu e você na sua cama, conversando sobre a festa animada, você entrou em mim mais do que literalmente, mais do que figurativamente, mais do que ninguém jamais tinha entrado. esse texto não tem parágrafos porque você não tem espaços em mim. você me preencheu e eu vivi uma obsessão. quando eu passei todos os finais de semana e feriados ao seu lado, limpando oficinas e varrendo folhas, e no mercado as duas da manhã, e segurando sua mão contra a sua vontade, e você entrando e invadindo lugares do meu corpo e da minha alma que eu nunca quis que entrasse, eu sabia que eu tava fazendo tudo errado. e você me alertou de todas as formas, até aquele dia no café da Augusta, onde eu chorei na manga da sua camisa, e você chorou no meu cabelo, e eu soube que você me amaria um dia, mas eu tinha que fazer de uma forma que eu nunca fiz, que não é certa, e nem errada, é a forma de amar. e quando eu fui pro pronto socorro, e quando eu rasguei todo o meu braço, e chorei por sete dias seguidos, amor, eu te amei mesmo assim. quando fiquei gritando no ponto de ônibus, e você me olhando de longe, assustado, sem conseguir ouvir o que eu dizia, eu te amei. e agora tudo faz sentido, porque eu aprendi que na obsessão, eu não te amei e nem me amei, e ontem você pegou na minha mão e chorou do meu lado, dentro do seu carro onde a gente tinha acabado de transar, e você se abriu pra mim e eu invadi lugares da sua alma que você nunca quis que eu conhecesse. e eu te entendi. eu entendi o que você quis dizer com priorizar as prioridades e se cuidar e dar um rumo na vida. e eu te disse tudo que eu deveria ter dito antes, antes do café, antes do pedido de socorro, antes dos telefonemas, antes da virada do ano. e acho que foi a primeira vez que eu, de verdade, te amei. e terminando esse texto, que como todos os outros que eu escrevo pra você não tem pé nem cabeça, eu queria te mostrar ele, queria que você lesse igual quando você leu o primeiro poema que eu escrevi pra você. mas parte do crescimento e do conhecimento que você me deu é saber meus limites e onde eu devo parar. e é aqui que eu paro. o texto é meu e talvez mil pessoas leiam, mas você não está entre elas e você nunca vai saber disso, e talvez você nem se lembre que a primeira pessoa a dizer eu te amo, foi você, na frente do café que não existe mais.