sábado, 27 de outubro de 2012

Alice e Lucas: A primeira reconciliação.

"- Alô?
- Alice?
- Eu não quero falar contig...
- Espera, só escuta, porra. Sabe quando tu tá desenhando e erra, e fica uma merda, mas tu não pode apagar, porque vai foder todo o resto do desenho? Então, Alice, tu é isso. Tu é a parte da minha vida que me deixa na merda, mas não posso te tirar dela, porque sem você, todo o resto fica fodido. Tu nunca vai entender isso, tu é toda organizada, e eu sou tão... sem sentido. Tu me deixa mal pra caralho, Ali, mas eu não sei viver sem você. Quando eu passo um dia sem te ver, parece que, sei lá, tá tudo vazio, sem cor, sem sentido. E quando eu te vejo, e a gente briga, a gente sempre briga, isso me deixa puto, mas é o que colore minha vida, sabe? Você é toda possessiva e eu sou explosivo, nós nunca vamos ser o casal perfeito, e eu amo isso, eu odeio a perfeição. Eu gosto da bagunça, do desleixo, do descuidado, do relaxado, do diferente, do errado. Eu gosto de ti. Me perdoa, e não vai embora. Minha vida é uma merda sem você.
- Tu é... Um filho da puta.
- Eu te amo."

domingo, 7 de outubro de 2012

Is it my body?

Me disseram que quando estivesse como vim ao mundo, sentiria paz. Então vou, suavemente, retirando minhas roupas. Peça por peça. Tiro os jeans puídos, a camisa larga, os tênis sujos, a meia remendada. Limpo o rosto, retiro o batom, o rímel, o pó, a sombra, o lápis, o delineador, e todos esse produtos que me servem como máscara. Nua, e limpa, começo a puxar os fios de cabelo. Arrancando um por um, sentindo a agonia, a dor, se infiltrando no meu couro cabeludo e espalhando por todo o meu corpo. Cada fio, ao menos para mim, representa uma decepção. Uma pessoa que partiu. Um desejo não realizado, uma esperança destruída, uma ilusão estilhaçada. Um pedacinho do meu coração partido.
No fim, termino careca, nua e limpa. Me olho no espelho, e ainda assim não sinto o alívio prometido. Falta algo, ainda me sinto sufocada, afogada em meu próprio mar de dores. Talvez eu não tenho vindo ao mundo assim. Não - pensando bem, eu vim ao mundo com menos ainda. Não basta retirar as roupas e os cabelos. É necessário deixar tudo, tudo, tudo dessa vida - é necessário perder pra ganhar a paz.
Arranhando os braços, cortando-os, observo o sangue correr. Com certa dificuldade e muita dor, puxo as unhas, retirando-as. Primeiro as dos pés, depois as das mãos. Dor. Agonia. Sangue. Mas vai valer a pena, eu sei que vai. Já posso sentir um fiozinho de paz se instalando em mim. Me mergulho em água fervente, amolecendo a pele, numa tentativa fraca de facilitar a retirada. Começo a puxar a pele do meu corpo, desde o topo da cabeça. A dor é inimaginável. Sinto as terminações nervosas tremerem, sinto o cérebro gritando por socorro. Sinto minha pele descolando dos músculos e ossos. Sangue, sangue pra todo lado, dor, dor por todos os cantos. E a paz aumentando. A essa altura, já estou retirando a pele da barriga. Agora dos joelhos. Pés. Termino, atiro a pele para longe. O espelho me mostra algo horrível, algo que nem sei como está vivo ainda. Me sinto fraca, caio no chão. A paz é grande, mas não suficiente. Ainda falta. Lembrei o que falta, de súbito.
Ainda não retirei a dor maior.
Seguro uma faca, tremendo, na ponta dos dedos em carne viva. Arranco o órgão central, aquele que é responsável pela vida, o que bombeia o sangue que agora jorra por todo meu corpo.
No instante em que a dor é insuportável, e me entrego a escuridão, explodo em cem por cento de paz, e em um segundo, eu compreendo.
Quem tem coração, não tem alívio. 

sábado, 6 de outubro de 2012

Minhas verdades são mentiras.


13 de junho de 2012.
Preciso aprender a controlar minha sinceridade. Aprender a controlar minha língua (ou dedos). Aprender que não é tudo que posso dizer (ou escrever para outros). Que muitas vezes serei interpretada de forma errada. Que a verdade não é vista da mesma forma por todos. Muitas vezes serei incompreendida. Sinceridade machuca – tanto quem diz, quanto quem ouve. Não sei, ultimamente ando achando que machuca mais quem diz. Odeio ser mal compreendida, odeio ser subestimada, odeio não conseguir expressar as verdades como são. Minhas verdades absolutas machucam os outros, mas matam a mim. Minhas verdades absolutas nunca são cem por cento verdades, ou cem por cento absolutas. Minhas verdades absolutas quase nunca são verdades, e muito menos absolutas. Minhas verdades não são sequer minhas. Minhas verdades são mentiras, sendo assim. Não são minhas, não são verdades. O que são, o que sobra? Nada, vazio.

Notas Sobre Tudo Que Eu Deveria Dizer


São Paulo, 12 de junho de 2012 – “Notas Sobre Tudo Que Eu Deveria Dizer”
Acho que o que eu sinto mesmo é medo. Mas não medo pequeno, medo bobo. Muito medo, um medo enorme, um medo absurdo, um pavor que me gela por dentro.
Eu tenho medo de ser grudenta, carinhosa, amorosa, meiga, fofa, e nhenhenhém demais. Eu gosto – e muito! – de mimar quem eu amo, mas tenho medo. Medo de sufocar o outro e fazer-me insuportável. Medo de fazer com que enjoem de mim, medo de amar mais do que sou amada, cuidar mais do que sou cuidada, querer mais do que sou querida. Porque tudo demais, tudo em excesso, tudo que sobra é jogado é fora, e eu juro, juro, juro que não aguento mais ser jogada fora.
Eu só queria, uma vez, poder dizer sem medo. Eu só queria conseguir complicar menos as coisas. Eu só queria conseguir amar como se eu nunca tivesse sido magoada. Entregar-me, sabe? De verdade, pra valer.
Digo, eu tô entregue já, pra falar a verdade. Tô mesmo. Só que eu sempre fico pensando que vai doer pra caramba quando me jogarem fora.
Eu não quero ser jogada fora.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Invisibilidade.

Mas ela era assim. Não importa o quanto gritasse, implorasse, ou chorasse por atenção. Ela era invisível. Talvez por culpa dos cabelos pretos, lisos e compridos que combinavam com seus olhos, dois poços profundos. Talvez por culpa das roupas sempre grandes. Talvez por culpa do modo como se esgueirava pelas ruas, tentando diminuir. Talvez por culpa do jeito distante, como se não soubesse e não quisesse saber em que mundo estava.
Era triste, até, o modo como gritava silenciosamente por companhia, o modo como tentava chamar atenção. Sonhava com o dia em que finalmente seria vista, sonhava com um alguém que finalmente fosse vê-la, fosse amá-la, quem sabe, talvez, por que não? Chorava, desesperava-se, queria, mais que tudo, atenção. Não tinha. Ninguém a via.
Passava horas tentando se perder de si mesma, para quem sabe ser encontrada por outros. Andava pelas ruas observando os rostos, querendo que observassem o seu. Olhava-se no espelho e não conseguia se ver - era invisível até para si mesma. Sabia que sua história era triste, e sabia que seu destino era ser triste. Ela era assim. Conformada, depressiva, sozinha, invisível, desesperada por amor. Mal interpretada. Só queria amor.
A única coisa de que precisava, era ser salva. Precisava que alguém a tirasse do buraco depressivo em que caíra, precisava que alguém revertesse sua invisibilidade, precisava que alguém a salvasse de toda essa loucura, precisava que alguém desviasse seu caminho, para que não fosse triste para sempre. Ela precisava ser salva. Mas ninguém a via.
E ninguém me vê.