[...] Foi engraçado, porque depois de ter sonhado várias vezes com esse dia, ele havia chegado e eu não dava a mínima. Eu estava ali, em um café qualquer, com um cappuccino na mão, em pé ao lado do balcão... E você acabava de passar pela porta, com seu cabelo bagunçado, com seus ombros largos, com suas pernas tortas e seu sorriso sacana. Você estava igual. Uns três ou quatro anos mais velho, mas igual. Uns dez ou onze passos mais longe, mas igual. Com uns oito ou nove novos amores, mas igual.
Seu olhar parou em mim. Congelou, quase como se não acreditasse, e eu quis dizer:
"sim, meu bem, sou eu, sim, vem cá, me diz oi, deixa eu te mostrar o quanto eu não preciso mais te mostrar nada". Acho que você pensava ser impossível me encontrar de novo. Eu, tomando cappuccino, cabelo curto, com maquiagem e salto alto. Eu, que agora não era mais você, pra você, sua. Eu que agora era por mim, pra mim, eu.
[...]
Veio andando na minha direção, entortou a sobrancelha, fechou um olho, abriu a boca, gaguejou.
- Alice? - Sua voz. Ah, sua voz. Não tinha mais nenhum efeito sobre mim. Chequei a pulsação: normal. Nada de coração disparado, boca seca, mãos tremendo... Nada.
- Lucas. - Foi uma afirmação, é claro que eu lembrava de você.
É claro que eu lembrava do meu primeiro amor, do primeiro a me dizer adeus, do primeiro a me fazer ver que o amor dói.
[...]
Eu sorri. Você pareceu confuso. Segundos depois, se recuperou, deu aquele seu sorriso torto, e passou os dedos no cabelo. Eu quis dizer:
"desarme-se, seu idiota, diz que sentiu minha falta, diz que eu to linda, diz que eu nunca estive tão gostosa, seja inconveniente, vulgar, safado, seja sem educação, mas mostre o quanto sente falta dos meus beijos, do meu toque, só pra eu poder dizer o quanto eu não me importo mais com você", mas não disse. Nada. Só te olhei e sorri.
- Quanto tempo, Ali. - Quem você pensava que era pra me chamar de Ali? Você perdeu esse direito, no mesmo dia que perdeu a mim.
- Pois é, muito tempo...
- Faz o quê? Quatro anos, desde a última vez que te vi?
"Cinco anos, cinco malditos anos. Cinco anos em que eu malhava, estudava, trabalhava, transava, beijava, vivia, sem você. Sem você."
- É, por aí. Como vai a vida? - Diz que tá um saco. Diz que nada mais faz sentido sem mim. Diz que me procurou em outras garotas, mas eu sou única. Implora. Implora por perdão, implora pra eu voltar. Só pra, dessa vez, ser eu a dizer não.
- Vai ótima, tô quase me formando na faculdade, sabia? E tu, como vai?
- Melhor do que nunca. Me formei há uns oito meses, consegui emprego em um jornal, comprei um apê... -
"Senti sua falta.", eu queria gritar. Senti sua falta em cada mísero dia, em cada manhã, cada madrugada. Senti tanto a sua falta, sonhei tanto em te ver, que agora eu, finalmente, não sinto mais nada.
[...]
Você pegou uma mecha do meu cabelo e pareceu triste.
- Cortou?
- Oi?
- Tu cortou o cabelo?
- Ah, cortei. - Cortei o cabelo ao mesmo tempo que você me cortava da sua vida, idiota.
- Não gostei. Tá feio. - Você disse com grosseria, fechando a cara e me olhando esquisito. Me deu raiva.
- Sério? Então é ótimo que eu não precise mais da sua aprovação. - Sorri. Você riu.
- Qual é, Ali. Tu sempre vai precisar de mim, boba.
Eu sempre vou ser seu primeiro amor... Inesquecível, né? - Riu mais ainda, e eu quis dizer:
"não, eu não preciso de você. Não eu não te quero mais, você não faz falta, seu babaca, seu sacana, seu inútil.", mas eu só aumentei mais o sorriso.
- Pensei que tinha amadurecido, Lucas. Vejo que não. - Você deu de ombros e pegou um cigarro. Me ofereceu outro.
- Parei de fumar.
- Desde quando? - Você saberia, se não tivesse ido. Saberia que parei de fumar desde que meu avô morreu de câncer no pulmão. Melhor, você teria me consolado quando isso aconteceu. Teria me dado força, e passado as noites enxugando minhas lágrimas. Se você não tivesse ido, tudo teria sido tão diferente...
- Sei lá, faz um tempo.
- Você mudou, Alice.
- Pois é.
- Olha, eu não queria comentar nada... Mas
teu corpo fica horrível quando você usa salto alto. E essa tua maquiagem tá te deixando tão velha. - Você riu.
- E você? Com esse cabelo, essa camisa, parece um delinquente. - Mentira. Tava lindo, você era lindo. Mas eu também estava linda, e eu sei que você me queria de volta. Mas mesmo se você dissesse, não me teria.
Eu só queria a chance de te provar, que eu não precisava mais provar nada à ninguém.
- Talvez eu seja um. - Você piscou. Eu ri. - Tenho que ir, Ali, tô atrasado pra um encontro. - E foi assim que eu soube que você me queria de volta. Você não precisa me dizer para o quê estava atrasado, nem ao menos precisava dizer que estava atrasado. Mas disse, fez questão de esfregar na minha cara que estava indo se encontrar com outra, que beijaria outra. Quase como se você quisesse dizer:
"eu tenho outras, eu não preciso de você, eu não sinto sua falta".
E foi assim que eu soube que você sentia minha falta.
- Tchau, então, até qualquer dia.
- Tchau, Ali. Se cuida, hein? - É claro que eu me cuido. Aprendi a me cuidar, há cinco anos, quando você se cansou de fazer isso por mim.
- Pode deixar.
Vi você virando, me dando as costas. Andando desajeitado, com suas pernas tortas e seu ombro largo. Era verdade, eu não sentia mais sua falta. Tá bom, só às vezes. Sentia aquela saudade que faz cócegas, aquela nostalgia, sentia saudade de tudo que fomos. E sim, eu te amei, e te amaria sempre. Podiam se passar vinte anos, eu te amaria. Mas aprendi que isso não muda nada, e aprendi a viver sem você.
[...] Mas, acima de tudo, eu nunca te esqueceria. Eu nunca esqueceria dos seus ombros largos e das suas pernas tortas. Eu nunca esqueceria do seu tom de voz, e do efeito que seu toque tinha sobre mim. Eu nunca esqueceria de quando você me ligou bêbado, eu nunca esqueceria do encontro no café, eu nunca esqueceria do encontro no cinema, eu nunca esqueceria de você. Porque você foi meu primeiro amor... Inesquecível.
[...]