quarta-feira, 24 de abril de 2013

E eu sou só mais um desses meros tão mortais

Andando na rua
Foi quando percebeu
Nunca fez diferença
Nunca foi até a lua
Nunca curou nenhuma doença
Nunca foi especial
Nunca foi a mais legal
Nem por um dia, conseguiu ser diferente
E agora estava assim
Tristeza sem fim
Doente
Igual.

...



"Mas, ah, se eu fizesse alguma diferença, se eu curasse alguma doença, como a força genial. Oh, ah, eu cantaria pra fazer sorriso, eu perderia o meu juízo só pra eu ser especial."

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Eduarda gosta de amarelo.

- Eduarda, por que você continua teimando em não tomar os seus remédios? - pergunta a mãe, 32 anos, exausta.
Eduarda tira o cobertor da cabeça e encara a mãe. Olhos negros se fitam. A menina na cama afasta o cabelo do rosto e pensa em como explicar.
- Porque eu acho errado isso, mãe. É errado, simplesmente não é certo, entende?
- O que é errado, pelo amor de Deus?
"O que é errado?", Eduarda se pergunta, vendo a exaustão no rosto exasperado da mãe. E se responde.
"É errado você chegar e me dizer que tenho depressão. É errado rotular o que eu sinto. É errado achar que toda essa confusão dentro de mim vai se acalmar se eu tomar essa pílula branca. É errado você confiar mais nas palavras de uma estranha do que nas minhas, só porque a estranha tem um diploma de medicina. É errado toda essa dor, mamãe. É errado eu sentir toda essa dor. Nunca passa, mãe, a dor nunca passa.
Lembra que eu só tenho doze anos, mamãe, eu só tenho doze anos. Sei que sou super avançada, uma espécie de gênio ou algo do tipo, mas eu continuo tendo só doze anos. Dane-se minhas notas na matemática, eu tenho só doze anos. E eu vou continuar sendo só uma menina de doze anos com muita dor dentro de mim, entende? É errado você ter tanta confiança nessas fórmulas médicas só porquê você não as compreende. É errado você achar que por ser tão incompreensível, deve ser correto. Eu sou incompreensível, mamãe, e eu não sou correta, sou? Não, não sou. 
É errado eu ter tantos amigos, porque eu minto pra todos eles! Eles pensam que eu tenho um pai, sabia? E pensam que eu tenho diabetes, por isso nunca me oferecem doces. Eu nem sei porquê eu disse ter diabetes, cacetada, eu nem sei! Mas eu disse, eu menti, é errado, mas eu adoro mentir. Isso é um problema? É um problema, mamãe? É errado eu gostar tanto de você e mesmo assim te torturar deixando você me ver nesse estágio de depressão. Me desculpe, mãe. Eu não vou te explicar porquê é errado. Nem vou dizer que é errado. Deixa você pensar que é certo. Deixa eu fazer mais um comentário bobo pra você achar que eu não acho nada errado e estava só brincando. É errado, mas deixa pra lá."
- É errado a pílula ser branca. Eu gosto de amarelo.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Nota não-suicida, nota de quem quer viver (ou tá tentando querer)

Imersa em água até o pescoço, esqueci como nadar. A maré sobe cada dia uns milímetros mais, e o desespero toma conta de mim quando percebo que não faço a menor ideia de como mergulhar para fora desse mar, já me esqueci onde fica a terra firme e, mesmo que lembrasse onde fica, não lembraria como chegar lá. Nadar não é tão fácil quanto parece. Não, não é só ter força de vontade. Esse tipo de mar é um perigo real, que machuca todos os dias, quando as ondas vêm forte e me deixam submersa por uns minutos.
Preciso que alguém venha me ensinar a movimentar o corpo daquela forma harmoniosa e me tirar desse mar. Preciso que alguém me dê uma bóia.
Preciso que alguém me tire da depressão, mas o único alguém que pode me ajudar sou eu mesma, e eu tô muito ocupada no momento, tentando não morrer com a água. Tô muito ocupada tentando não me afogar e, por estar tão ocupada, é que estou me afogando.
Indo pro fundo.
O fundo... O vazio que eu conheço tão bem.
Ah, às vezes nem tenho medo de deixar a água entrar nos meus pulmões. Lá no fundo é tão quentinho e conhecido, com as minhas lâminas e os meus espinhos, e a dor no estômago sem alimento, e toda essa tortura a que me submeto. Às vezes parece tão mais fácil entregar tudo e ter mais uma recaída...
Mas eu ainda luto. Ainda estou tentando lembrar como nadar. Ainda acordo e levanto todo dia. Ainda estou tentando lembrar como viver.
Ainda estou tentando. Estou tentando. Tentando. Nadando. Ainda estou.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O relógio.

Os ponteiros do relógio giram, mas, por quê?, o tempo não passa.
As pessoas na rua andam, mas, por quê?, elas não vão a lugar algum.
Eles dizem que logo vai ficar tudo bem, mas, quando? Esse dia nunca chega.
Eu tomo meus remédios na hora certa, mas, por quê?, a dor nunca passa.

E caminho, caminha, caminhamos.
Choro, chora, choramos.
Corto, corta, cortamos.
Grito, grita, gritamos.

Acendo um cigarro, sem filtro.
Manda mais uma cerveja aí, seu moço!
Mas'então, e aquele dia lá? Traçou a gatinha?
Ei, esquece a cerveja e desce uma dose de tequila!

Sorriem e falam coisas sem sentido;
Como se tudo fizesse sentido.
Quando nem eles mesmos entendem,
A dor, o amor, a solidão: não compreendem.
Ninguém nunca vai entender,
o porque de toda dor ser necessária e tão duradoura.
E por que quanto mais bondoso, mais vai sofrer;
E quando vai tudo finalmente ter um fim.

Ela apaga a luz e caminha com os pulsos sangrando até o quarto,
e ouve o moço do bar pedir mais tequila.
Respira fundo e sente que quem sabe ela pudesse ter uns sonhos legais com isso.
Mas essa noite não tem sonhos...
Pra sempre ela vai dormir tranquila.

O controle remoto.

"Oito anos é muito tempo", pensa, e acende um cigarro de filtro vermelho. Olhos borrados de maquiagem, chorando sentado no meio-fio, se sente pequeno, vazio. Oito anos é tanto tempo, e ele conseguiu estragar tudo. A única garota que tinha a leveza e a compreensão necessária para entender que ele usava lápis preto e batom. A única garota que usava shorts e camiseta do Led Zepellin. A garota que o conheceu na balada underground e disse que o batom vermelho dele ficaria lindo na boca dela.
Ah, aquela garota era única. A única garota.
Mas ele terminara tudo, depois de oito anos, por causa de um controle remoto. Ele chorava, chorava, sentia saudade dos braços pequenos envolvendo o corpo grande, das unhas curtinhas mas que arranhavam as costas, dos olhos oblíquos de cigana, do sorriso pequeno e tímido, das piadas sujas, do "bah meu pau" que ela soltava quando ficava estressada. Sentia saudade da moça toda, em suma.
Começaram a namorar depois de dois anos de amizade. Ou seja, a conhecia desde os dezenove anos, e ela, dezessete. Era uma criança. Ele, um rapaz cheio de cachos e batom preto. Logo perceberam que combinavam e eram o casal perfeito. Os beijos eram absurdamente especiais, o sexo era, ah! o sexo era divino.
Mas terminaram. Não! Ele terminou tudo. Por causa de um maldito controle remoto que ela insistia em deixar no canto do sofá da onde ele caiu oito vezes e meia. Mas ela não o escutava e não colocava a porra do controle remoto em cima da mesa de centro. Na quase nona vez em que o engraçadinho estraga-relacionamentos caiu, João Carlos levantou, pegou o controle remoto no ar, deixou uma lágrima cair de seus olhos pintados e gritou:
- Já deu, Lúcia! Tá tudo acabado, você é muito teimosa.
A moça, perplexa pois eles nunca haviam brigado, ficou em silencio o encarando. Discutiram por dez minutos no máximo, e ele foi embora do apartamento dela, localizado na zona leste de São Paulo.
E agora, 4h da manhã de domingo sentado no meio-fio da rua Augusta, ele chorava e a desejava de volta. Não podia ser que o amor da sua vida ia embora assim! Não, ele a amava, ela o amava e isso não podia ficar assim... Mas, o quê?! O que faria, oh céus?! O que diria, oh vida?! Nada, nada. Porque ela devia estar brava, sua pequena ursinho estava brava e...
O celular tocava. Na tela, "Lúcia <3". Era ela. Atendeu.
 - Alô?
- Oi... Eu... Eu... Eu coloquei o controle remoto na mesa de centro. E eu tô com tanto frio.
Silencio. Ele respira fundo.
- Seu cobertor tá chegando - diz enquanto caminha de volta pro apartamento -, e joga a merda do controle remoto pela janela.

[...]

NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Meus guias de sobrevivência no universo.

domingo, 14 de abril de 2013

Renato Russo, Raul Seixas e cocaína.

Essa noite eu sonhei que estava no meu batizado e eu tinha que ficar sóbria mas estava pouco me fodendo. Tinha uma recente amiga minha comigo nesse sonho, e a gente começava a andar pelas escadas de um hotel muito famoso, procurando o Renato Russo, achávamos várias atrizes famosas e tal. Aí a gente achava o Renato e junto com ele estava o Raul Seixas, e eles ofereciam cocaína pra gente e eu cheirava só um pouquinho e já ficava muito louca. Aí minha mãe aparecia e eu ficava morrendo de medo porque eu tinha que parecer sóbria porque, né, meu batizado! E meu nariz não parava de coçar, e eu jurava que nunca mais ia cheirar essa droga e que meu plano de experimentar todas as drogas que existem ia ficar só na maconha e cocaína mesmo porque, nossa, era muito ruim! E minha mãe gritando e o Renato Russo me oferecendo um autógrafo e o Raul Seixas cantando a música que eu mais odeio dele (sonho que se sonha só...), e a minha amiga com um cigarro na mão me olhando tipo "o que você vai fazer agora?!"...
Aí eu acordei. E meu nariz estava sangrando.

Se isso não é tipo, MUITO BIZARRO, nada mais é. Alguém deve ter enfiado cocaína no meu nariz enquanto eu dormia, porque, sério, como e por que tava sangrando? Weird.

sábado, 13 de abril de 2013

O blog trocou de roupa.

Então, depois de muito tempo (muito MESMO), eu finalmente mudei a aparência do blog. Não aguentava mais a antiga.
Espero que gostem.

(Mas se não gostarem, foda-se, o blog é meu. RÁ!)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Grito de desespero, pedido de ajuda, quadragésima segunda nota de suicídio

A Grande Verdade de Todas As Grandes Verdades é que ninguém sabe o quanto dói até passar por isso. Essa semana estava doendo muito, mais do que o normal, e hoje, hoje parece que eu vou morrer, hoje meu peito está em fogo, meu coração apertado, e meus pulsos, minhas coxas, minha barriga, tudo, tudo, toda a extensão da minha pele está cheia de marcas, sangrando, ardendo, doendo, pulsando, é a vida pulsando na dor. É na dor que a vida fica evidente, e eu vejo como é frágil, como é fácil, e digo adeus, mas não me vou, nunca vou. Eu quero sair, quero ver as pessoas incríveis que eu gosto de ver e conversar e observar. Por que ninguém me leva pra sair? Eu quero sair, eu quero esquecer, quero fugir de mim. Aguentei a semana toda, eu mereço, oh, eu mereço, não mereço? 
Ninguém entende até passar por isso. As lágrimas que caem ardendo, elas estão caindo agora, estão ardendo agora. E esse texto cheio de dor, não chega a um terço da dor verdadeira, da dor da autora por trás desse manifesto de desespero, desse grito por socorro. 
E meu pai diz que precisamos conversar, minha mãe quer que eu volte a tomar antidepressivos, mas ela não entende, caramba, ela não vê? O único remédio eficiente é a saída, a fuga, o escape, as cervejas, as risadas, as músicas, as pessoas, aquela sensação de infinito ao conversar com quem me entende. E quem me entende? Só eles. E cadê eles? Eles estão na rua, oras, oras, oras, oras bolas! Me levem p'ras ruas! AGORA! 

...


"E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela se esquece
Que é impossível ter da vida calma e força
Viver em dor, o que ninguém entende

Tentar ser forte a todo e cada amanhecer
[...]
E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarisse sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte
Mas esse vazio ela conhece muito bem
De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo
O medo de voltar p'rá casa à noite
Os homens que se esfregam nojentos
No caminho de ida e volta da escola
A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo
De que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto
A violência e a injustiça que existe
Contra todas as meninas e mulheres
Um mundo onde a verdade é o avesso
E a alegria já não tem mais endereço
Clarisse está trancada no seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu cansaço
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo resistir
E vou voar pelo caminho mais bonito
Clarisse só tem quatorze anos..."



quinta-feira, 11 de abril de 2013

Desabafo tosco porém arrumadinho.

Oi.
Oi, meu nome é Shelly Rodrigues e eu estou sóbria há quase 84 horas. 
Meu nome é Shelly Miranda e eu chorei em todas essas horas. 
Meu nome é Shelly da Silva e eu estou indo ao terapeuta daqui a pouco, porque minha mãe me acha louca.
Meu nome é Shelly Zombie e todas as noites eu tomo três comprimidos de Dramin, e fico com os olhos vermelhos pensando em todas as pessoas que eu admiro e queria ser igual, mas não sou e nunca vou ser. 
Meu nome é Shell, só Shell, às vezes Shé, raramente Ly, e eu estou perdida, sem saber quem sou ou o que faço.

[...]

Estava considerando escrever menos mas, ah!, Zeus sabe o quanto preciso escrever. Diferentemente dos outros pseudo-escritores da internet, eu não espero a inspiração vir, ela vem quando quer, eu escrevo porque estou transbordando. Eu escrevo porque preciso, por uma questão de sobrevivência. E eu nem escrevo tudo aqui. Tenho meu Infinito Particular de Asneiras Aleatórias, que é um caderninho pessoal de besteiras. 

[...]

Tchau.
Tchau, eu tenho 15 anos na Terra, e meu pai acha que estou caminhando rumo ao alcoolismo.
Tenho 256 anos mentais, e hoje eu fui chorar e não consegui, o que me fez pensar que minhas lágrimas esgotaram. (dois minutos depois, eu chorei)
Tenho 0 anos de experiência e já sofro como se tivesse 1000.
Tenho pouquíssimos anos, na verdade, mas tudo dói.
Tudo cai.

...

(A real é que eu não tenho ninguém, e tô com uma angústia muito grande por isso.)
(A real também é que eu preciso de um abraço. Daqueles que preenchem.)

Pequenos contos inspirados em pequenas divagações em momentos aleatórios

E se a aranha continuasse subindo pela parede mesmo com medo de talvez vir uma chuva forte, mas nunca viesse e ela chegasse ao topo? E se no topo ela visse que lá embaixo era melhor? E se lá em cima fosse um telhado sujo quando lá embaixo era uma parede lisa e confortável?
A dona arranha teria subido pela parede sem nenhuma chuva forte para derrubá-la. Mas lá em cima, quando, finalmente!, alcançou o tão esperado topo, ela viu que não era isso, não era aquilo.
Chorou por três dias seguidos e começou a descida.
Veio uma chuva forte, morreu na queda.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Sobre quem poderia ter existido e estaria fazendo três meses hoje.

(Observação: escrevi isso às quatro da manhã enquanto fumava um cigarro na escadaria do meu prédio morrendo de medo de minha mãe me ver. Ou seja: tá horrível e sem sentido.)
(Observação 2: Anna Júlia seria o nome do bebê da minha mãe se tivesse sido menina. Eu preferia uma menina, porque aí não veria o pai da criança toda vez que olhasse pro meu irmão.)
(Observação 3: eu amo meu irmão, mas ele nunca vai ser alguém que eu goste. Porque ele é filho de quem eu desprezo, sabe? E vai ser educado de forma desprezível. Se fosse uma menina seria diferente. Ah, machismo nosso de cada dia. Meu irmão vai ser criado para pensar que é superior às mulheres e eu vou odiá-lo. Então criei uma vida para a Anna Júlia. Retirei um 'n'. Enfim.)


Ana Júlia teria os olhos verdes iguais aos do seu bisavô, o cabelo loiro igual ao de sua mãe e a alma rebelde-hippie-gótica de sua irmã mais velha.
Aprenderia a andar com treze meses e a falar com quinze. Aos três anos já escreveria contos baseados em seus animais de estimação (oito gatos, dois cães, um pássaro, dois ratos e uma jibóia). Ana Júlia, aos quatro anos, começaria as aulas de judô e balé. Aos seis, pararia com o balé, irritada com a perfeição exigida pela professora. Dez anos, faixa preta em judô, começaria o kung fu.
Seria Jú até os doze, Ana a partir de então. Aos dezesseis se rebela com seu nome composto.
Com 22, faz um curso de cabeleireira e faculdade de física, e pintou os seus próprios cabelos de azul turquesa. Tem muitos piercings, e uma tatuagem de estrela no ombro (Ana Júlia acha isso bem cafona, e por isso mesmo que fez. Sua rebeldia é sem sentido, às vezes).
24 anos, nunca fumou, só bebe cerveja e cheira cocaína vez'em quando. Se tornou fã de Cazuza e Bauhaus. Gosta de pintar, especialmente de fazer releitura dos quadros de Van Gogh, e às vezes coloca um cigarro apagado na boca, só pela sensação de tê-lo parado ali. Não fala palavrões, não porque ache feio, mas porque não consegue se acostumar com eles. Formada em física, se tornou professora após abandonar o curso de cabeleireira.
Ana vai ao médico aos 33 anos e descobre que, devido aos seus 97kg, tem colesterol alto. Nem se importa. Sabe que é linda gorda ou magra, e ser gorda é mais fácil e gostoso. Colesterol o caramba, dane-se, um dia vai morrer mesmo.
Rodeada de amigos, com 37 anos ainda dá festas todas as sextas e sábados e domingos.
Júlia (ou Ana), linda, compreensiva, divertida, louca (de um jeito não-amoroso) por mim. Morre aos 86 anos (viu, colesterol, RÁ!), deixa pra trás apenas eu, sua irmã mais velha.
[...]
Mas, e o Arthur?
Ah, é tem o Arthur. Veio o Arthur, e não a Ana.
Ana Júlia seria a pessoa mais incrível do mundo, seria minha melhor amiga.
Mas Ana não existe, nem Júlia.
Nada existe. E o que existe, é fruto de alguém que desprezo e outro alguém que me despreza.
[...]
Mas ela faria três meses hoje.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Sonhos vêm, sonhos vão.

Quem sabe um dia qualquer Susana entenda as razões e o porquê, mas hoje, hoje ela nem liga, hoje ela desliga (o celular, o computador, a televisão, a mente...), hoje ela pede mais uma cerveja mesmo não gostando do gosto, ela acende um cigarro mesmo odiando a coceira na garganta, ela ri mesmo sem ver graça e fica bêbada mesmo sabendo que vai desejar morrer no dia seguinte por ter dito muito pra quem se importa pouco.
Susana vai pra faculdade de medicina e se pergunta o motivo de fazer medicina. Ela gosta mesmo é de cinema. Mas seu pai disse que não dava dinheiro e não teria filha vagabunda. Então, Susana faz medicina, Susana tem 23 anos e quando crescer vai salvar vidas, enquanto deseja criar vidas. Mas tudo bem, pensa Susana. Sempre existe uma luz, sempre existe um caminho.
Mas que caminho, pensa depois, se eu me sinto tão sozinha? Ah, sim. Susana ouve Legião Urbana e anda com uma calça boca de sino, chinelos e uma camiseta do Woody Allen. Susana pega o ônibus às dez da manhã e às sete da noite. Susana trabalha como aprendiz em um hospital para crianças com câncer. Susana odeia crianças.
Susana gostava de meninos e meninas, mas ultimamente não gosta de ninguém. Ela senta no restaurante vegetariano às duas da tarde e toma um chá gelado. Não come, compra um chiclete com recheio de morango e se sente mal porque ele tem açúcar. Ela caminha pela avenida Paulista, ela observa as pessoas, ela senta e desenha um pouquinho, trabalha em um roteiro que está escrevendo. Não sabe qual o sentido de escrever um roteiro se na verdade ela vai ser médica. Mas escreve.
Susana sempre precisou de um pouco de atenção. Susana não tem ninguém, ela dorme em uma pensão só de garotas. Mas as garotas olham pra suas calças bocas de sino e pensam "2013, Susana. Olhe as nossas skinny. Skinny jeans, Susana, por que não compra um par? Emagrece!", cogitam dizer isso pra Susana, mas desistem.
Susana lê Fernando Pessoa antes de dormir e chora até pegar no sono. Susana só quer se divertir, mas não tem mais dinheiro. Talvez seus amigos estivessem procurando emprego, se ela tivesse amigos. Não tem. Nunca terá. Nunca será.
Seus sonhos estão perdidos! "Mas, que sonhos, oh meu zeus? Que sonhos, Susana? Hein, moça? Cadê tu? Acende a luz, Su. Vai viver, Susana Abreu de Souza. Manda teu pai ir pra'quele lugar, e vive, caçamba!", Susana conversa consigo mesma. Ela queria acreditar que tudo é perfeito e todos são felizes. Mas ninguém lhe diz ao menos obrigado.
Susana está tentando pensar por si mesma, mas me disse que Renato Russo define tudo melhor. Fernando Pessoa define bem melhor, também. Susana sente muito por tudo.
Susana é tão nova, mas tua tristeza é tão exata. Susana não abre a janela, e hoje o dia é tão bonito.

(Susana cresceu, parou de usar roupas antigas e começou a usar social e jaleco no hospital, namorou um homem que a traiu, foi viver com muito dinheiro mas sem vontade de se divertir. Susana morreu aos 36 anos de câncer no pulmão. Em seu testamento deixou todos seus bens para o hospital de crianças com câncer.)