Quem sabe um dia qualquer Susana entenda as razões e o porquê, mas hoje, hoje ela nem liga, hoje ela desliga (o celular, o computador, a televisão, a mente...), hoje ela pede mais uma cerveja mesmo não gostando do gosto, ela acende um cigarro mesmo odiando a coceira na garganta, ela ri mesmo sem ver graça e fica bêbada mesmo sabendo que vai desejar morrer no dia seguinte por ter dito muito pra quem se importa pouco.
Susana vai pra faculdade de medicina e se pergunta o motivo de fazer medicina. Ela gosta mesmo é de cinema. Mas seu pai disse que não dava dinheiro e não teria filha vagabunda. Então, Susana faz medicina, Susana tem 23 anos e quando crescer vai salvar vidas, enquanto deseja criar vidas. Mas tudo bem, pensa Susana. Sempre existe uma luz, sempre existe um caminho.
Mas que caminho, pensa depois, se eu me sinto tão sozinha? Ah, sim. Susana ouve Legião Urbana e anda com uma calça boca de sino, chinelos e uma camiseta do Woody Allen. Susana pega o ônibus às dez da manhã e às sete da noite. Susana trabalha como aprendiz em um hospital para crianças com câncer. Susana odeia crianças.
Susana gostava de meninos e meninas, mas ultimamente não gosta de ninguém. Ela senta no restaurante vegetariano às duas da tarde e toma um chá gelado. Não come, compra um chiclete com recheio de morango e se sente mal porque ele tem açúcar. Ela caminha pela avenida Paulista, ela observa as pessoas, ela senta e desenha um pouquinho, trabalha em um roteiro que está escrevendo. Não sabe qual o sentido de escrever um roteiro se na verdade ela vai ser médica. Mas escreve.
Susana sempre precisou de um pouco de atenção. Susana não tem ninguém, ela dorme em uma pensão só de garotas. Mas as garotas olham pra suas calças bocas de sino e pensam "2013, Susana. Olhe as nossas skinny. Skinny jeans, Susana, por que não compra um par? Emagrece!", cogitam dizer isso pra Susana, mas desistem.
Susana lê Fernando Pessoa antes de dormir e chora até pegar no sono. Susana só quer se divertir, mas não tem mais dinheiro. Talvez seus amigos estivessem procurando emprego, se ela tivesse amigos. Não tem. Nunca terá. Nunca será.
Seus sonhos estão perdidos! "Mas, que sonhos, oh meu zeus? Que sonhos, Susana? Hein, moça? Cadê tu? Acende a luz, Su. Vai viver, Susana Abreu de Souza. Manda teu pai ir pra'quele lugar, e vive, caçamba!", Susana conversa consigo mesma. Ela queria acreditar que tudo é perfeito e todos são felizes. Mas ninguém lhe diz ao menos obrigado.
Susana está tentando pensar por si mesma, mas me disse que Renato Russo define tudo melhor. Fernando Pessoa define bem melhor, também. Susana sente muito por tudo.
Susana é tão nova, mas tua tristeza é tão exata. Susana não abre a janela, e hoje o dia é tão bonito.
(Susana cresceu, parou de usar roupas antigas e começou a usar social e jaleco no hospital, namorou um homem que a traiu, foi viver com muito dinheiro mas sem vontade de se divertir. Susana morreu aos 36 anos de câncer no pulmão. Em seu testamento deixou todos seus bens para o hospital de crianças com câncer.)