quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Só estranha mesmo.

Uma vez minha irmã me disse que eu era estranha. Uma vez meu pai me disse que eu era esquisita. Já me disseram que eu sou louca, demente, doida, maluca, pirada, confusa, complexa. Diferente.
"Você é diferente, Shelly."
Eu sou diferente. Meio inapropriado isso, não? Chegarem em mim e falarem que eu sou diferente. Mas o que é ser diferente? Isso é bom? Ruim? O que eu sou?
Não, droga, eu não sou diferente. Eu não faço nada de diferente, eu não tenho nada de especial, eu não tenho nenhum talento incrível ou fora do comum, eu não sei cantar, eu não sei desenhar, e eu escrevo tão bem quanto qualquer adolescente de quinze anos. Mas que saco, eu não sou diferente. Não sou especial. Não sou uma exceção. Eu não sou absolutamente nada. NADA.
Então, caralho, parem com isso.
"Você lê? Tá vendo, você é diferente."
"Você gosta de física? Que diferente."
"Seu nome é Shelly mesmo? Diferente, né?"
"Você não é estranha... Só diferente."
"Você tem um jeito diferente de escrever."
NÃO, PORRA, EU NÃO SOU, ISSO NÃO É, NÃO, NÃO SOU, NÃO TENHO. Eu sou igual todo mundo, eu não sou diferente.
Eu sou um lixo, um lixo como qualquer outro ser humano nesse mundo é.
Grata.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Alice e Lucas: O(s) Encontro(s)


Julho, verão de 2001

Nós éramos crianças, e eu odiei você logo que te vi. Te achei um rostinho bonito, mas não suportava aquele seu olhar metido. Eu tinha dez anos, quando ouvi sua voz pela primeira vez. E eu juro que eu nunca pensei que fosse virar algo, nem ao menos amizade. Talvez por isso te tratei tão mal. Talvez por isso não dei a mínima quando você disse que eu era chata. Ou talvez fosse porque eu era criança, e porque você realmente me irritava, com seu olhar metido e se achando superior. Ah, se eu tivesse uma máquina do tempo... Mudaria tudo, voltaria no tempo e diria a mim mesma para cuidar bem daquele moço, de você, e talvez você não tivesse ido embora. Talvez eu não estivesse escrevendo a história de nós dois, eu estaria vivendo-a. Eu não queria um começo, e quando começou, eu não queria o fim.
[...]

Fevereiro, verão de 2005

Eu lembrei de você. Tinha te visto uma vez, há quatro anos e mesmo assim eu lembrei de você.  Quando te vi entrar pela porta da sala de aula, os ombros largos e o peito estufado, meio sorriso no rosto, cabelo preto despenteado e olhos pequenos e verdes, eu lembrei. E pensei “meu Deus, ele cresceu”. Não tive dúvidas que era você. Eu simplesmente reconheci o menino irritante com quem eu era obrigada a brincar nas férias de julho de quatro anos atrás. Mas, nossa, você tinha crescido. Muito, e eu quase me arrependi de ter sido tão má. Quase. Você nem olhou pra mim, só caminhou e cumprimentou alguns meninos babacas. Eu era nova na escola, eu só conhecia você, mas, cara... Eu odiava você. Tipo, você tinha crescido e tal, tava bonitinho, até, mas aquele olhar metido continuava, e só Deus sabe o quanto eu tinha vontade de socar sua cara cada vez que te via.
[...]
Mas aí você falou comigo, e algo na sua voz me deixava tão... Vulnerável. Lembro até hoje, sete anos depois, da nossa primeira conversa.
- Ei, eu não te conheço de algum lugar? – Sua voz era rouca, calma, confortadora. Mas, como tudo em você, tinha aquele tom superior, que me irritava tanto, tanto...
- Não, e essa cantada é velha. – Menti.
- Não tô te cantando, ô, calma aê! Só quis ser simpático. Tu é nova na escola, né não? – Você falava arrastado, com jeito de malandro, e, meu Deus, aquilo despertava em mim uma vontade de ser sua mocinha, a mulher do malandro. Porque eu sempre gostei de coisas erradas, e não conseguia imaginar algo mais errado que você...
- Sou sim. Agora vai se oferecer pra me mostrar todo o colégio, se fazendo de bom moço, e depois dando em cima de mim, né? – Eu sorri. Esforcei-me tanto para não deixar que suas palavras me amolecessem, me fizessem sua. Eu te odiava há anos atrás, por que isso mudaria agora? E eu também não acreditava que você simplesmente não lembrasse mais do verão de 2001. Eu lembrei, e queria que você lembrasse.
- Na verdade, estressadinha, eu tô indo jogar e não pretendo acompanhar ninguém pela escola, não. – Primeira vez que você me deu as costas e eu quis correr atrás e me jogar nos seus braços e... Não, não, não, eu não podia pensar isso! Cadê aquela Alice que com dez anos não suportava o metidinho? Eu a queria de volta, eu queria a Alice normal de volta.
(Eu sei, você pode não acreditar nisso tudo. Mas eu juro, eu juro, juro, que te odiei da primeira vez, e me apaixonei na segunda. Queria tanto fazer-te meu, e queria mais ainda não querer nada disso.)
[...]
Aquela primeira semana de aula, foi... Como posso dizer... Um inferno. Seus olhos me seguiam por toda a parte, e eu tentava te odiar. Tava conseguindo, moço... Eu tava conseguindo te odiar. Até você fazer aquilo. POR QUÊ? Tô gritando na sua cara: POR QUE VOCÊ TINHA QUE ME TRATAR TÃO BEM? POR QUE SE TORNOU TÃO MEU AMIGO? POR QUE VOCÊ ME BEIJOU? POR QUE VOCÊ DISSE QUE ME AMAVA? POR QUE VOCÊ ME PEDIU EM NAMORO? Por que você terminou comigo?...
[...]
Você não deve se lembrar de nada, vou explicar tudo por partes, tá? E a nossa história começa aqui. Até esse parágrafo era só o encontro da sua história e da minha. Agora começa a nossa história. Ah, amor, não me ache louca. Eu me lembro de tudo, eu sinto falta de tudo. Ah, meu amor... Eu te odiava com todo meu amor, mas você foi pequeno demais pra segurar minha enorme confusão. Vou te fazer lembrar-se de tudo, ok? Meu bem... Nossa história é tão errada, e é por isso que eu gosto dela. Meu querido, nossa história é linda.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Minha vizinha do 22.


No apartamento em frente ao meu, mora uma senhora com seu filho. Na verdade, não sei se é a senhora que mora com o filho ou o filho que mora com a senhora. Irrelevante. Fato é que esse moço tem uma namorada. Suponho que seja namorada dele, pode ser noiva, esposa, amante, entre outros nomes dados para “parceira de beijos, sexo e/ou abraços”.  De qualquer modo, o que eu estava dizendo?... Ah, sim. Essa namorada é linda, tem cara de inteligente, e tem bom gosto musical. Sei disso porque toda sexta-feira ela dorme aí e eles sempre ouvem The Doors, Green Day e uma vez ouviram até Evanescence! Legal, né? Tenho uma quase-vizinha bem legal. As roupas dela são muito bonitas, o tipo de roupa que eu usaria se tivesse um tiquinho mais de dinheiro e um tiquinho menos de timidez.
Eu gosto da namorada do meu vizinho. Ela é aquele tipo de mulher que atrai olhares sem atrair críticas. Aquele tipo que não mostra, deixa perceber. “Melhor que mostrar, é deixar perceber”, li essa frase em algum canto por aí. Gostei. Assim como eu gosto da namorada do meu vizinho. Também gosto do meu vizinho. Ele tem cara de inteligente. Você simplesmente sabe quando uma pessoa é inteligente, e eu sei que ele é. Tem cara de quem ouve Los Hermanos. Tem cara de bom moço, cavalheiro, um bom namorado, um bom filho. Mas também tem uma carinha de metido. Bom, pelo menos ele me dá bom dia quando às vezes nos encontramos no elevador, de manhã. A namorada dele, nem isso faz. Também, linda daquele jeito, pra que é que ela precisa olhar pro mundo, cumprimentar os outros? É linda e tem o namorado perfeito. Mas, mesmo assim, ela perde alguns pontinhos comigo, por ter cara de metida.
Se algum dia eu for como a namorada do meu vizinho (linda, inteligente, legal, bem sucedida), eu não vou ficar metida. Vou continuar sendo legal com todos, e vou até cumprimentar uma menina adolescente com cara de sono no elevador às 6h50 da manhã. Já pensou se essa menina estranha escreve um texto, escreve palavras sobre mim, sem nem ao menos me conhecer?! Vou querer que ela escreva coisas boas e bobas, e não que eu sou metida.
Mas... Eu nunca vou ser como a namorada do meu vizinho, porque eu não espero nunca ser conhecida com “a namorada do fulano” e também porque eu não tenho cara de metida.
P.S. e sempre dou bom dia a todo mundo.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Sobre aniversários, décadas de mudança e a vida.

Esses dias foi meu aniversário. Na verdade, agora que parei pra pensar, percebi que fazem exatamente sete dias que foi meu aniversário. Engraçado. Todo ano, quando chega agosto, eu fico ansiosa pro dia sete. Meu aniversário, sabe. Gosto de ganhar presentes, atenção, carinho, abraços. Minha sensibilidade multiplica por mil nessa época, fico realmente (mais) difícil de lidar. Sei lá, fico pensando que estou velha, que logo eu vou morrer, fico pensando no sentido da vida, fico pensando como estarei daqui quinze anos, como estarei comemorando o próximo aniversário, se estarei viva... Calculo quantas pessoas eu perdi nos últimos dez anos, penso nas que perderei nos próximos. Relembro de cada felicidade vivida, cada dor sentida, reabro todos os machucados só pelo prazer de olhá-los e pensar "eu superei". Já não dói mais. Na verdade, nem sinto mais muita coisa. Tô meio que anestesiada. Desde a última perda, eu meio que já não sinto as coisas como antes.
Eu costumava ser tão fofa... Tão meiguinha, tão bobinha, tão ingênua, tão frágil, tão simples, tão cheia de boas intenções, tão pequenininha, tão inocente... Eu juro que eu era totalmente diferente do que sou hoje. Nos últimos três anos, minha vida e minha personalidade mudaram completamente. Agora eu sou tão intensa, tão cheia de dores. Antes eu era tão vazia, tão boba, tão, tão, tão ingênua. Meu eu atual é repleto de dores, confusões, experiência, perdas, brigas, choros, decepções. Mas, hoje, eu sou forte. Não tanto quanto eu provavelmente serei daqui uma década, mas com certeza mais do que eu era há cinco anos atrás.
Acho que, no fim, é isso mesmo. Sofrer, sofrer, sofrer, chorar, chorar, chorar, morrer, morrer, morrer. A vida é triste, temos apenas fragmentos de felicidade no meio dela, e, como os bons animais estúpidos que somos, não sabemos aproveitá-la.
Às vezes, eu penso que é horrível nós não sabermos NADA sobre... Nós. Não sabemos o que é isso, essa vida, como a gente tá aqui, o que é 'aqui', pra onde vamos, quem somos, como somos, como tudo existe, por que existe, o que é 'tudo'... São tantas dúvidas, por alguns segundos, às vezes, eu vejo minha vida como se fosse um filme ou um livro em que nós não sabemos nada dos personagens ou do enredo enquanto ele não se desenrola, como se só fossemos descobrir no final. Mas aí me dou conta de que não é um filme. Não é um livro. É nossa vida. E talvez no final não tenha nada. Nada.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Suicídio interior.

Afundar-me em pensamentos, perder-me em lembranças, afogar-me em lágrimas. Suicidar-me. Interiormente. Me matando, aos poucos, lentamente, torturando-me com as piores hipóteses, as lembranças mais tenebrosas, revivendo cada dor já sentida, reabrindo cada cicatriz, até tranformá-las em fraturas expostas. E todas as noites, sem exceção, ir além da dor imaginável. É um suicídio interior, uma auto-tortura do cérebro, auto-induzimento da alma ao sofrimento. Olhos obscuros, coração lento, mãos tremendo, alma morrendo. Me encontro em um dos mais profundos níveis do desespero, cada pedacinho meu grita implorando por socorro. Mas, oh céus, eu não quero socorro. Eu não quero ajuda. Eu quero cortar, despedaçar, queimar, destruir minha alma, eu quero incendiar e explodir meu cérebro. Eu quero que todos os pensamentos e todas as lembranças morram. Eu cansei dessa luta, procurando pela saída do poço. Ah, deixa, eu desisto mesmo. Vou ficar aqui no fundo, (des)confortavelmente acomodada em meio aos espinhos, vou afundar-me cada vez mais nas lâminas, vou brincar de roleta-russa com todas as balas na arma, vou tirar minha alma e jogá-la de um precipício, vou arrancar meu cérebro e esquartejá-lo. Vou sentar aqui, quietinha, no escuro, dolorida, me machucando mais e mais, e esperar, calmamente, o dia em que não terei mais forças pra reagir, e o suicídio tenha sucesso.
Suicídio interior, lento e (assim espero) eficiente. Assim só sobrará minha carcaça, a parte exterior, a que é bonitinha e pode facilmente interagir com outros. Aí não pensarei mais, aí não sofrerei mais. Aí, finalmente, tudo ficará bem. O único modo de ser feliz é não tendo um cérebro, nem um coração. O único modo de ser feliz é suicidando-se, de dentro pra fora.
Eu serei feliz.