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"Demais. É tudo demais. Tudo que sinto, sinto demais", explica para o psiquiatra, em sua segunda consulta. "Se to feliz, é feliz demais, tanto que me prejudica. E se to triste, porra, to muito triste."
Aí ele só rabisca umas coisas no papel e dobra a dose de remédios. Mas não vê, não entende. Não vai passar com seis comprimidos por dia. Nem com oito, dez, quinze. Não vai passar. É o mal do século, o mal dos gênios do século, o mal da pseudo-escritora que sonha em publicar um livro mas se esconde atrás de textos na terceira pessoa. É a maldição de quem tem plena consciência da sua falta de consciência, quem tem conhecimento da sua doença.
Sussurra, por aí, sussurra:
"Por quê?"
E tem aquele ventre que a concebeu e não acolheu. E tem as paixões que só ligam quando estão bêbadas. Aquele que deu a semente, agora a chama de demente. Tem todos aqueles que admira e mal lembram que ela respira. Tem o texto que escreve mas que o verdadeiro sentido ninguém percebe. Tem a morte tão fascinante, as mentiras tão bem contadas, o poder tão cativante, as historias inventadas.
Desculpa, desculpa. Tomo meu comprimido branco e o verde com amarelo. Vou ficar quieta. Fingindo que não existo. Ignorando minha loucura. Ignorando minha sanidade. Ignorando-me.
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