"a dor é um processo natural da vida", eu disse, e todo mundo me olhou daquele jeito, e sorriram meio de lado, como quem vê uma criança descobrir como amarrar os tênis.
e eu me senti uma criança descobrindo como usar o garfo quando aprendi a ficar sozinha, quando aprendi a dormir sem chorar antes, quando descobri que dava pra viver uma vida realmente querendo viver. porque duas décadas da minha vida curtinha e que todo mundo ri quando eu tento agir como se fosse longa, eu passei querendo estar em qualquer universo paralelo onde eu não tivesse que me virar sozinha. eu queria que o mundo acabasse em barranco pra eu morrer escorada, e todo mundo diz isso rindo, mas eu falo bem séria mesmo, com vinco entre as sobrancelhas, porque eu só sei me escorar. em pessoas. em desculpas. em diagnósticos. em medos e dúvidas e pavores.
e eu só sei fugir. eu achava que fugindo da dor eu ia ser feliz mais fácil, me achava muito esperta mesmo por pular os processos de sentir. mas a dor precisa ser sentida. e agora ela veio cobrar a carga horária dela na minha vida, e eu permiti que ela viesse, sem relutância, eu a senti, e foi duro, tão duro quanto uma criança indo ao dentista pela primeira vez ou se perdendo da mãe no mercado. mas passou. e eu entendi, eu finalmente entendi, que tudo passa.
quando eu era pequena, eu me perguntava se um dia eu ia aprender a amarrar os tênis. se um dia eu ia aprender a assobiar. até que eu aprendi.
quando eu me perdi da minha mãe no mercado, eu achei que nunca mais a encontraria. até que ela veio e me deu uma bronca por sair correndo, e me comprou danoninho.
quando eu fui ao dentista a primeira vez, eu achei que ia ter tanto medo que ia sair correndo. até que a moça fez o que tinha que fazer, e me deu um pirulito no final da consulta.
quando me vi sozinha, e quando a dor veio, eu achei que nunca mais ia passar. que nunca mais ia parar. até que passou. e eu saí por aí me sentindo tão adulta, dizendo com a cabeça levantada
a dor é um processo natural da vida.
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