quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Você não quer ser como eu. Não quer ver todas as coisas que eu vi.

"É alarmante o quanto você pode ser adorável, enganando á todos, dizendo que está se divertindo. Os garotos, as garotas, todos gostam de você, vocês nos dá borboletas, você ri como Deus, sua mente é um diamante."

Porque a resposta que eu procuro desde os oito anos não existe, já que eu nem formulei a pergunta. Eu quero sentir o vento antes de abrir a janela. Eu quero voar antes de entrar no avião. Eu quero ficar bêbada antes de beber. Quero ficar limpa antes do banho. E aí eu fico desesperada procurando uma resposta para uma pergunta que nem sequer existe. E todo mundo acha legal, olha lá, a menina, dezesseis anos, fumando no intervalo da escola; olha lá, quiquiqui, ela anda como uma modelo francesa e ao mesmo tempo como uma maloqueira de rua. E eu sei exatamente o que eles estão pensando, calculo cada passo, cada jogada no meu cabelo comprido que não exige nenhum cuidado e que lavo com xampu vagabundo só pra mostrar que não me importo. E falo a primeira merda que me vem na cabeça porque sei que isso os fascina. E eles, tão bobos e ingênuos, me amam ou me odeiam; mas me idolatram, todos eles.
Mesmo assim, não é o suficiente. Sou tão cheia e ao mesmo tempo tão vazia, sou como um recipiente que precisa ser preenchido com atenção, ou explode. É que eu os acho tão idiotas, tão bestas, tão aieuquerosercomoela, sabe? E eu digo que você não quer ser como eu, com tanta maldade e tão pouca idade, ficando louca, procurando preencher meu vazio com qualquer droga ou pessoa que encontro. É claro que não acreditam em mim, acham que estou sendo, sei lá, humilde, fazendo da minha vida incrível algo comum; e continuam me desejando, desejando, querendo, correndo, implorando. Me imploram atenção como mendigos sentados no meio da avenida Paulista implorando dinheiro.
Acontece que o mendigo aqui sou eu. Vocês imploram, mas quem precisa de vocês sou eu. Porque se eu sumir, alguém vai me substituir, ou talvez não, mas, que seja, vocês vão me guardar no fundo da memória, como alguém que sequer existiu, que era fantástica e experiente e madura demais pra ser verdade. Mas se vocês sumirem, se todas as pessoas do mundo sumirem, se não existir mais plateias pro meu show, acabou pra mim. Não existe peça sem alguém pra aplaudir. Eu não existo sem alguém pra aplaudir, pra rir, pra me invejar, pra olhar pra mim e eu ver o olho brilhando de admiração, e aumentar minha auto-estima.
Mas, tanto faz, eu sou mesmo brilhante. Tenho uma personalidade incrível, só que é carente, sabe? Entende? Sou tudo que você quer ser, só que eu quero você. Sua atenção e seu amor. Quero que se apaixone por mim, e continue louco, mesmo quando eu te deixar três horas me esperando na chuva, mesmo quando beijar seu melhor amigo só pra te ver sofrer. Eu sou a pessoa mais fodona e mais podre do mundo, mais divertida e mais cruel, mais romântica e mais vadia, tudo ao mesmo tempo.
De vez em quando aparecem exceções, gente que não se encanta por mim e me deixam tão sem chão que eu acabo me encantando por eles. Tipo a J., que não ficou doidinha pelo meu jeito diferentinho. E aí eu vou até o inferno, até o Paquistão, até a casa do caralho e a puta que pariu pra ter o amor dela.
É. Eu sou mesmo inacreditável. Nem minha terapeuta sabe explicar exatamente qual o meu problema. Carência excessiva, ela diz. Um ego enorme, que acha que merece toda atenção que esse universo tem a oferecer. Fazer o que. Continuo tomando meus dois Seroquel, quatro Carbamazepina, um que eu sempre esqueço o nome, e dois Rivotril por dia. Segurando, segurando, tudo menos explodir, tudo menos deixar os outros saberem o quão louca eu sou (e não de um jeito cool ou descolado. Só louca mesmo.), tudo menos ser sincera sobre meus sentimentos. A depressão e a ansiedade são coisas que mesmo quando você não está tendo uma crise, está tendo uma crise. Tá sempre com medo da crise vir, então o fantasma do desespero ta com você o tempo todo. No banho. Na padaria comprando cigarro. Levando o lixo. Fazendo a lição de matemática. Até cagando, na real. Eu queria expelir, vomitar, gozar, cagar, mijar, arrotar, soluçar tudo isso pra fora de mim. Mas não dá. Então, eu sigo controlando tudo do meu jeito errado e vagabundo, fumando, sendo uma grandessíssima filha da puta, pichando muros, sendo legal com todo mundo e fingindo que, meu Deus, to me divertindo demais e minha vida é tão fodona, nossa, parabéns pra mim.

Eu nem sei onde eu quero chegar com esse texto. Melhor não chegar em lugar nenhum.

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