domingo, 7 de outubro de 2012

Is it my body?

Me disseram que quando estivesse como vim ao mundo, sentiria paz. Então vou, suavemente, retirando minhas roupas. Peça por peça. Tiro os jeans puídos, a camisa larga, os tênis sujos, a meia remendada. Limpo o rosto, retiro o batom, o rímel, o pó, a sombra, o lápis, o delineador, e todos esse produtos que me servem como máscara. Nua, e limpa, começo a puxar os fios de cabelo. Arrancando um por um, sentindo a agonia, a dor, se infiltrando no meu couro cabeludo e espalhando por todo o meu corpo. Cada fio, ao menos para mim, representa uma decepção. Uma pessoa que partiu. Um desejo não realizado, uma esperança destruída, uma ilusão estilhaçada. Um pedacinho do meu coração partido.
No fim, termino careca, nua e limpa. Me olho no espelho, e ainda assim não sinto o alívio prometido. Falta algo, ainda me sinto sufocada, afogada em meu próprio mar de dores. Talvez eu não tenho vindo ao mundo assim. Não - pensando bem, eu vim ao mundo com menos ainda. Não basta retirar as roupas e os cabelos. É necessário deixar tudo, tudo, tudo dessa vida - é necessário perder pra ganhar a paz.
Arranhando os braços, cortando-os, observo o sangue correr. Com certa dificuldade e muita dor, puxo as unhas, retirando-as. Primeiro as dos pés, depois as das mãos. Dor. Agonia. Sangue. Mas vai valer a pena, eu sei que vai. Já posso sentir um fiozinho de paz se instalando em mim. Me mergulho em água fervente, amolecendo a pele, numa tentativa fraca de facilitar a retirada. Começo a puxar a pele do meu corpo, desde o topo da cabeça. A dor é inimaginável. Sinto as terminações nervosas tremerem, sinto o cérebro gritando por socorro. Sinto minha pele descolando dos músculos e ossos. Sangue, sangue pra todo lado, dor, dor por todos os cantos. E a paz aumentando. A essa altura, já estou retirando a pele da barriga. Agora dos joelhos. Pés. Termino, atiro a pele para longe. O espelho me mostra algo horrível, algo que nem sei como está vivo ainda. Me sinto fraca, caio no chão. A paz é grande, mas não suficiente. Ainda falta. Lembrei o que falta, de súbito.
Ainda não retirei a dor maior.
Seguro uma faca, tremendo, na ponta dos dedos em carne viva. Arranco o órgão central, aquele que é responsável pela vida, o que bombeia o sangue que agora jorra por todo meu corpo.
No instante em que a dor é insuportável, e me entrego a escuridão, explodo em cem por cento de paz, e em um segundo, eu compreendo.
Quem tem coração, não tem alívio. 

Um comentário:

  1. Tuas palavras me transmitiram uma agonia inexplicável, misturada com aquela vontade e curiosidade de continuar lendo. Tudo muito forte. Tudo muito lindo.

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