segunda-feira, 15 de abril de 2013

O controle remoto.

"Oito anos é muito tempo", pensa, e acende um cigarro de filtro vermelho. Olhos borrados de maquiagem, chorando sentado no meio-fio, se sente pequeno, vazio. Oito anos é tanto tempo, e ele conseguiu estragar tudo. A única garota que tinha a leveza e a compreensão necessária para entender que ele usava lápis preto e batom. A única garota que usava shorts e camiseta do Led Zepellin. A garota que o conheceu na balada underground e disse que o batom vermelho dele ficaria lindo na boca dela.
Ah, aquela garota era única. A única garota.
Mas ele terminara tudo, depois de oito anos, por causa de um controle remoto. Ele chorava, chorava, sentia saudade dos braços pequenos envolvendo o corpo grande, das unhas curtinhas mas que arranhavam as costas, dos olhos oblíquos de cigana, do sorriso pequeno e tímido, das piadas sujas, do "bah meu pau" que ela soltava quando ficava estressada. Sentia saudade da moça toda, em suma.
Começaram a namorar depois de dois anos de amizade. Ou seja, a conhecia desde os dezenove anos, e ela, dezessete. Era uma criança. Ele, um rapaz cheio de cachos e batom preto. Logo perceberam que combinavam e eram o casal perfeito. Os beijos eram absurdamente especiais, o sexo era, ah! o sexo era divino.
Mas terminaram. Não! Ele terminou tudo. Por causa de um maldito controle remoto que ela insistia em deixar no canto do sofá da onde ele caiu oito vezes e meia. Mas ela não o escutava e não colocava a porra do controle remoto em cima da mesa de centro. Na quase nona vez em que o engraçadinho estraga-relacionamentos caiu, João Carlos levantou, pegou o controle remoto no ar, deixou uma lágrima cair de seus olhos pintados e gritou:
- Já deu, Lúcia! Tá tudo acabado, você é muito teimosa.
A moça, perplexa pois eles nunca haviam brigado, ficou em silencio o encarando. Discutiram por dez minutos no máximo, e ele foi embora do apartamento dela, localizado na zona leste de São Paulo.
E agora, 4h da manhã de domingo sentado no meio-fio da rua Augusta, ele chorava e a desejava de volta. Não podia ser que o amor da sua vida ia embora assim! Não, ele a amava, ela o amava e isso não podia ficar assim... Mas, o quê?! O que faria, oh céus?! O que diria, oh vida?! Nada, nada. Porque ela devia estar brava, sua pequena ursinho estava brava e...
O celular tocava. Na tela, "Lúcia <3". Era ela. Atendeu.
 - Alô?
- Oi... Eu... Eu... Eu coloquei o controle remoto na mesa de centro. E eu tô com tanto frio.
Silencio. Ele respira fundo.
- Seu cobertor tá chegando - diz enquanto caminha de volta pro apartamento -, e joga a merda do controle remoto pela janela.

[...]

Um comentário:

  1. Fiquei emocionada com esse conto. Simplesmente complexo, complexamente simples.
    Parabéns, Shelly! Como já disse, você escreve muito bem.
    [:

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