(Observação: escrevi isso às quatro da manhã enquanto fumava um cigarro na escadaria do meu prédio morrendo de medo de minha mãe me ver. Ou seja: tá horrível e sem sentido.)
(Observação 2: Anna Júlia seria o nome do bebê da minha mãe se tivesse sido menina. Eu preferia uma menina, porque aí não veria o pai da criança toda vez que olhasse pro meu irmão.)
(Observação 3: eu amo meu irmão, mas ele nunca vai ser alguém que eu goste. Porque ele é filho de quem eu desprezo, sabe? E vai ser educado de forma desprezível. Se fosse uma menina seria diferente. Ah, machismo nosso de cada dia. Meu irmão vai ser criado para pensar que é superior às mulheres e eu vou odiá-lo. Então criei uma vida para a Anna Júlia. Retirei um 'n'. Enfim.)
Ana Júlia teria os olhos verdes iguais aos do seu bisavô, o cabelo loiro igual ao de sua mãe e a alma rebelde-hippie-gótica de sua irmã mais velha.
Aprenderia a andar com treze meses e a falar com quinze. Aos três anos já escreveria contos baseados em seus animais de estimação (oito gatos, dois cães, um pássaro, dois ratos e uma jibóia). Ana Júlia, aos quatro anos, começaria as aulas de judô e balé. Aos seis, pararia com o balé, irritada com a perfeição exigida pela professora. Dez anos, faixa preta em judô, começaria o kung fu.
Seria Jú até os doze, Ana a partir de então. Aos dezesseis se rebela com seu nome composto.
Com 22, faz um curso de cabeleireira e faculdade de física, e pintou os seus próprios cabelos de azul turquesa. Tem muitos piercings, e uma tatuagem de estrela no ombro (Ana Júlia acha isso bem cafona, e por isso mesmo que fez. Sua rebeldia é sem sentido, às vezes).
24 anos, nunca fumou, só bebe cerveja e cheira cocaína vez'em quando. Se tornou fã de Cazuza e Bauhaus. Gosta de pintar, especialmente de fazer releitura dos quadros de Van Gogh, e às vezes coloca um cigarro apagado na boca, só pela sensação de tê-lo parado ali. Não fala palavrões, não porque ache feio, mas porque não consegue se acostumar com eles. Formada em física, se tornou professora após abandonar o curso de cabeleireira.
Ana vai ao médico aos 33 anos e descobre que, devido aos seus 97kg, tem colesterol alto. Nem se importa. Sabe que é linda gorda ou magra, e ser gorda é mais fácil e gostoso. Colesterol o caramba, dane-se, um dia vai morrer mesmo.
Rodeada de amigos, com 37 anos ainda dá festas todas as sextas e sábados e domingos.
Júlia (ou Ana), linda, compreensiva, divertida, louca (de um jeito não-amoroso) por mim. Morre aos 86 anos (viu, colesterol, RÁ!), deixa pra trás apenas eu, sua irmã mais velha.
[...]
Mas, e o Arthur?
Ah, é tem o Arthur. Veio o Arthur, e não a Ana.
Ana Júlia seria a pessoa mais incrível do mundo, seria minha melhor amiga.
Mas Ana não existe, nem Júlia.
Nada existe. E o que existe, é fruto de alguém que desprezo e outro alguém que me despreza.
[...]
Mas ela faria três meses hoje.
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